Metamorfoses: quando a imagem diz o que falta às palavras
Belo Horizonte vive, neste mês, um bom momento para quem gosta de atravessar a cidade pelas suas exposições. Até 27 de setembro, o Centro Cultural UFMG recebe *Constelações assim como Metamorfoses*, mostra que reúne quinze anos da produção do artista mineiro Paulo Penna em desenho, gravura e fotografia. Vale a visita — e vale, também, um olhar mais demorado sobre o que o próprio título da exposição sugere.
Metamorfose como figura do sujeito
Metamorfose é a ideia de que algo se transforma sem deixar de ser, em alguma medida, aquilo que era antes. Não é substituição, é passagem. E é curioso como essa noção se aproxima do modo como a psicanálise pensa o sujeito: não como uma identidade fixa e acabada, mas como algo sempre em processo, atravessado por repetições, retornos e reinvenções ao longo do tempo. Quem visita a mostra de Penna encontra, de certa forma, esse mesmo movimento: um artista que, ao longo de quinze anos, não abandona um tema, mas o revisita sob superfícies diferentes.
A obra como lugar onde o inconsciente se apresenta
A obra de arte funciona de um jeito parecido com o sonho ou com o sintoma: ela dá forma sensível a algo que resiste à linguagem direta. Quando Penna transita entre gravura, desenho e fotografia, ele está, de certa forma, testando diferentes superfícies para que o irrepresentável encontre contorno. É isso que Freud já apontava quando se interessava pela arte: não como decoração da vida psíquica, mas como um dos poucos lugares em que o inconsciente consegue se apresentar sem precisar ser traduzido inteiramente em palavras.
Talvez seja esse o convite de uma exposição como essa: menos decifrar o que o artista quis dizer, e mais permitir que a própria imagem trabalhe em nós — que ela toque algo que, até então, não tinha encontrado forma.
Constelações assim como Metamorfoses
Paulo Penna — Centro Cultural UFMG
Até 27 de setembro de 2026

