Setembro Amarelo: por que existe uma campanha para falar do impronunciável
O Setembro Amarelo existe porque, durante muito tempo, o suicídio foi tratado como um tema que não se nomeia. Do ponto de vista psicanalítico, esse silêncio não é neutro: aquilo que não pode ser dito em palavras tende a insistir de outras formas, muitas vezes mais destrutivas. Entender por que essa campanha existe — e por que ela precisa se repetir todo ano — passa por entender um pouco de como a psicanálise pensa o sofrimento psíquico.
Pulsão de vida, pulsão de morte
Freud, ao formular a noção de pulsão de morte, não estava descrevendo um desejo consciente de morrer, mas uma força psíquica de descarga e de retorno a estados anteriores de tensão, que convive, em todo sujeito, com a pulsão de vida — o investimento em laços, em desejo, em futuro. Nenhuma dessas forças atua isolada; elas se misturam e se equilibram de formas diferentes em cada momento da vida de alguém. Quando esse equilíbrio se rompe, o sofrimento raramente aparece como uma frase clara do tipo “eu quero morrer”. Aparece como cansaço, como isolamento, como a sensação de que não há mais lugar no discurso do outro para aquilo que se sente.
Por que nomear importa
É por isso que a escuta importa tanto quanto a informação. Campanhas como o Setembro Amarelo não substituem o tratamento, mas cumprem uma função que a psicanálise valoriza desde sempre: abrir um espaço onde o sofrimento possa ser dito, em vez de apenas atuado. Nomear o tema em praças, prédios e redes sociais é uma forma de dizer, coletivamente: existe escuta disponível para o que parecia não ter palavra.
Isso vale tanto para quem sofre quanto para quem está por perto. Perguntar, ouvir sem pressa de responder e sem julgar, e ajudar a pessoa a buscar apoio profissional são gestos simples que fazem parte do mesmo movimento: dar lugar de fala a algo que, sem esse lugar, ficaria preso dentro de cada um.
*Este texto trata de um tema sensível. Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento difícil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, disponível 24 horas, além de atendimento por chat e e-mail em cvv.org.br.*

